Países pobres envelhecem mais cedo: estudo global mostra avanço acelerado da limitação para caminhar
Pesquisa com 150 mil pessoas em 25 países revela que moradores de nações de baixa renda começam a perder mobilidade até 12 anos antes dos habitantes de países ricos; baixa escolaridade, obesidade e sedentarismo estão entre os principais fatores...

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Um dos sinais mais visíveis do envelhecimento — a dificuldade para caminhar — está chegando mais cedo para milhões de pessoas em países pobres. Um amplo estudo internacional publicado nesta segunda-feira (11), na revista científica The Lancet Healthy Longevity, concluiu que moradores de países de baixa renda desenvolvem limitações de mobilidade até 12 anos antes dos habitantes de países ricos, num fenômeno que os pesquisadores classificam como “transição acelerada para a incapacidade funcional”.
A pesquisa analisou dados de 150.221 adultos acompanhados ao longo de até 24 anos em 25 países dos cinco continentes, no âmbito do estudo PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology), coordenado pela McMaster University e pelo Population Health Research Institute, no Canadá.
Os resultados mostram um retrato desigual do envelhecimento global. Em países de baixa renda, a idade em que um terço da população já apresenta limitação para caminhar foi estimada em 64 anos. Nos países ricos, o mesmo marco só é atingido aos 76 anos.
“Embora as pessoas estejam vivendo mais, muitas passam mais anos convivendo com incapacidades que limitam atividades básicas”, afirmam os autores no artigo. O principal autor do estudo, o neurologista Raed A. Joundi, destaca que o desafio do século XXI não é apenas aumentar a expectativa de vida, mas garantir envelhecimento saudável e independente.
O levantamento incluiu participantes de países ricos, médios e pobres. Entre os países de renda média estavam Brazil, China, South Africa e Turkey. Entre os países de baixa renda estavam India, Pakistan e Zimbabwe.
Ao longo do acompanhamento médio de 14,5 anos, 26.156 participantes desenvolveram nova limitação para caminhar. A incidência foi muito maior nos países pobres: 3,34 casos por 100 pessoas ao ano, contra 1,31 nos países ricos. Na China, o índice foi o menor observado: 0,58.
O estudo também identificou forte desigualdade entre homens e mulheres. As mulheres apresentaram incidência significativamente maior de dificuldades de mobilidade em praticamente todas as faixas etárias. Moradores de áreas rurais também sofreram mais limitações e tiveram maior mortalidade do que os residentes urbanos.
Para os pesquisadores, o avanço precoce da perda funcional em países pobres pode refletir uma combinação de fatores estruturais: trabalho físico intenso ao longo da vida, menor acesso a cuidados médicos, alimentação inadequada, ambientes urbanos hostis e baixa escolaridade.
Entre todos os fatores analisados, a baixa escolaridade apareceu como o principal elemento associado ao risco populacional de limitação para caminhar. Segundo os cálculos do estudo, cerca de 11,1% dos casos poderiam ser atribuídos à baixa educação formal. Em seguida vieram obesidade, hipertensão arterial e baixa atividade física recreativa.
“Educação é um determinante social fundamental da saúde”, afirmam os autores. Pessoas com maior escolaridade tendem a ter melhor acesso a informações, prevenção médica, alimentação adequada e condições de trabalho menos desgastantes.
Nos países ricos, a obesidade foi o principal fator associado à limitação de mobilidade. Já nos países de renda média e baixa, a escolaridade insuficiente teve peso maior.
Outro dado que chamou atenção dos cientistas foi a relação entre doenças cardiovasculares e perda funcional. Pessoas que sofreram AVC apresentaram risco três vezes maior de desenvolver limitação para caminhar. Diabetes, hipertensão, tabagismo, depressão e doença coronariana também elevaram significativamente o risco.
O trabalho reforça uma mudança importante na visão contemporânea sobre envelhecimento. Historicamente, políticas públicas concentraram esforços em reduzir mortalidade precoce e combater doenças específicas. Agora, cresce a percepção de que viver mais não significa necessariamente viver melhor.
A discussão ganhou força especialmente após a criação da Década do Envelhecimento Saudável da ONU, iniciativa coordenada pela World Health Organization para o período entre 2021 e 2030. O objetivo é ampliar os anos de vida com autonomia funcional e participação social.
“O envelhecimento saudável exige mais do que sobrevivência”, observam os pesquisadores. Segundo eles, a limitação para caminhar funciona como um “termômetro” da saúde geral, porque afeta diretamente independência, trabalho, interação social e qualidade de vida.
O estudo sugere ainda que políticas urbanas podem ter papel decisivo na prevenção da incapacidade física. Ambientes com baixa “caminhabilidade” — ruas inseguras, falta de calçadas e transporte precário — foram associados a maior risco de limitação funcional, sobretudo nos países pobres, onde caminhar ainda é necessidade cotidiana para grande parte da população.

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Apesar da dimensão inédita da pesquisa, os próprios autores reconhecem limitações. Os dados de mobilidade foram baseados em relatos dos participantes, sem exames clínicos padronizados. Além disso, diferenças culturais podem influenciar a percepção e o relato de incapacidade.
Ainda assim, especialistas consideram o estudo um dos mais abrangentes já realizados sobre envelhecimento funcional no mundo. A conclusão central é direta: prevenir incapacidade física precisa se tornar prioridade global tão importante quanto combater doenças fatais.
“Limitações para caminhar e mortalidade compartilham fatores de risco modificáveis”, escrevem os autores. Para eles, investir em educação, atividade física, alimentação saudável e controle da hipertensão pode simultaneamente prolongar a vida e reduzir os anos vividos com incapacidade.
Num planeta que envelhece rapidamente — e em que dois terços dos idosos já vivem em países pobres ou de renda média — a descoberta lança um alerta contundente: a desigualdade social não encurta apenas a vida. Ela também antecipa a perda da autonomia.
Referência
Trajetórias ao longo da vida e fatores de risco modificáveis para limitação da marcha incidente e mortalidade em 25 países de alta, média e baixa renda (PURE): um estudo de coorte prospectivo. The Lancet Longevidade SaudávelPublicado em: 11 de maio de 2026. Raed A Joundi, Sumathy Rangarajan, Shrikant Bangdiwala, Darryl Leong, Eric Smith, Vitória Millere outros
DOI: 10.1016/j.lanhl.2026.100837Link externo